
A vinícola chilena Don Melchor transformou quase três décadas de estudos sobre o comportamento das videiras em uma estratégia de produção e diferenciação no mercado de vinhos de alto padrão. Localizada em Puente Alto, nas proximidades de Santiago, a propriedade de 125 hectares foi dividida em 151 microparcelas, permitindo que uvas cultivadas em diferentes pontos do mesmo terreno sejam colhidas e vinificadas separadamente. O método, inicialmente desenvolvido para aperfeiçoar o principal rótulo da casa, passou também a sustentar uma nova linha destinada a consumidores especializados e colecionadores.
A iniciativa acompanha uma tendência observada entre produtores de vinhos premium do Chile, da Argentina e da Europa, que buscam valorizar a origem específica das uvas como elemento de diferenciação. Em vez de identificar apenas a região produtora, as vinícolas passaram a destacar pequenas áreas de cultivo, cujas características de solo, clima e maturação podem resultar em perfis distintos de aroma, sabor e textura.
Na Don Melchor, essa abordagem começou em 1997, quando o engenheiro agrônomo Enrique Tirado assumiu a responsabilidade técnica pela produção e identificou diferenças significativas entre as plantas de uma propriedade até então tratada como uma única unidade. A observação levou à elaboração de um mapa inicial do vinhedo, posteriormente complementado por análises de solo, estudos climáticos e avaliações das uvas ao longo de diferentes safras.
A divisão foi formalizada em 2002, após aproximadamente cinco anos de pesquisas que incluíram a participação do especialista Pedro Parra e do Institut National Agronomique Paris-Grignon, da França. As 151 microparcelas foram organizadas em sete parcelas principais, cada uma com características próprias que influenciam o resultado da vinificação.
O trabalho permite identificar diferenças mesmo quando as uvas pertencem à mesma variedade e são submetidas a processos semelhantes de produção. Em degustações realizadas pela vinícola, o vinho originado da parcela número 1 apresenta características associadas a frutas vermelhas, enquanto o da parcela 3 revela notas de frutas negras. Já a parcela 7 produz vinhos com aromas florais e de especiarias.
Essas diferenças são utilizadas na composição do Don Melchor, produzido predominantemente com Cabernet Sauvignon. A seleção das parcelas busca combinar características complementares para construir o perfil final do vinho. Segundo Tirado, atualmente CEO e diretor técnico da vinícola, o objetivo é identificar as particularidades de cada área e compreender como elas contribuem para o conjunto.
A seleção também envolve a exclusão de parte da produção. A cada safra, entre 60% e 70% dos vinhos elaborados nas diferentes parcelas são utilizados na composição do Don Melchor. Os demais 30% a 40% ficam de fora, não necessariamente por apresentarem qualidade inferior, mas porque suas características podem não se integrar ao perfil definido para o rótulo principal.
Foi a partir dessa produção que surgiu a série The Parcels, lançada em agosto de 2025 com o DM/01, elaborado com uvas da safra 2022. A proposta consiste em engarrafar separadamente vinhos de parcelas específicas, permitindo que consumidores conheçam características que normalmente aparecem combinadas no Don Melchor tradicional.
O primeiro lançamento utiliza principalmente uvas da parcela número 1, a mais antiga da propriedade, plantada em 1979. O DM/01 2022 apresenta composição de 88% de Cabernet Sauvignon e 12% de Cabernet Franc e passou 15 meses em barricas de carvalho francês, das quais 64% eram novas.
A escolha da parcela tem relação com sua importância para o desenvolvimento do vinhedo. Dela foram selecionadas 3 mil plantas utilizadas como base para a seleção massal empregada pela vinícola, processo que permite preservar e reproduzir características de determinadas videiras.
A linha The Parcels não seguirá uma sequência numérica fixa. A cada safra, a equipe técnica escolherá a área que apresentar características consideradas mais representativas daquele ciclo de produção. Para a edição referente à safra 2023, a parcela selecionada foi a de número 5.
Segundo Tirado, os novos rótulos não foram concebidos como uma categoria inferior ao Don Melchor tradicional. A proposta é oferecer vinhos de produção limitada, com características próprias, destinados especialmente a consumidores interessados em compreender as diferenças entre as áreas de cultivo e em reunir garrafas de diferentes safras e parcelas.
A estratégia está associada à mudança no comportamento de parte dos compradores de vinhos de alto valor, que passaram a demonstrar maior interesse pela procedência das uvas e pelas particularidades de cada propriedade. Nesse segmento, a identificação de uma área específica de produção tornou-se um elemento utilizado pelas vinícolas para apresentar a singularidade dos rótulos.
O Brasil ocupa uma posição relevante nos planos comerciais da Don Melchor. De acordo com Tirado, o mercado brasileiro está entre os mais importantes para a marca há cerca de 30 anos. Além das vendas, consumidores do país também estão entre os visitantes frequentes da vinícola, localizada a menos de uma hora da capital chilena.
A trajetória da Don Melchor está ligada à Concha y Toro, grupo fundado em 1883 por Melchor Concha y Toro, que deu nome ao vinho. Produzido desde 1987, o rótulo passou por uma mudança organizacional em 2019, quando foi estruturado como uma vinícola independente dentro da holding, com equipe técnica, direção, marketing e distribuição próprios.
A reorganização permitiu concentrar os esforços da operação no desenvolvimento de um único vinho, enquanto a criação da série The Parcels abriu uma nova frente de produtos. O reconhecimento internacional também contribuiu para ampliar a exposição comercial da marca, especialmente depois que o Don Melchor alcançou a primeira posição na seleção anual dos melhores vinhos da revista americana Wine Spectator.
Mesmo após 35 colheitas analisadas, a vinícola mantém pesquisas sobre solo, clima e comportamento das videiras. A continuidade dos estudos permite ajustar os critérios de seleção e acompanhar as mudanças observadas entre as safras, enquanto a comercialização de parcelas individuais amplia o portfólio da empresa no mercado internacional de vinhos de alto padrão.
