Vinhos europeus avançam no Brasil e acordo Mercosul-UE pode reduzir preços

Os vinhos europeus estão prestes a ganhar ainda mais espaço nas prateleiras brasileiras. Impulsionados pelo acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, produtores de França, Itália, Portugal e Espanha passaram a enxergar o Brasil como um dos mercados mais promissores para expansão internacional, em um momento de desaceleração do consumo em mercados tradicionais e aumento das barreiras comerciais em outras regiões.

A mudança começou a ganhar força após a redução da tarifa de importação dos vinhos europeus, que caiu de 27% para 24% em maio e seguirá um cronograma gradual de redução até chegar a zero em 2034. A expectativa do setor é que os primeiros efeitos sobre os preços sejam percebidos ainda no segundo semestre deste ano, à medida que os estoques adquiridos sob a antiga tributação forem substituídos por novos carregamentos importados em condições mais favoráveis.

Importadoras, distribuidores e produtores estimam que os preços ao consumidor possam recuar entre 5% e 10% nos próximos meses. Além da redução tarifária, o movimento é favorecido por um câmbio mais estável e pela necessidade de produtores europeus encontrarem novos mercados para absorver a produção excedente.

Segundo Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine, o interesse das vinícolas europeias pelo mercado brasileiro já vinha crescendo desde o ano passado. Para ele, a combinação entre retração do mercado chinês, tarifas mais elevadas nos Estados Unidos e aumento dos estoques na Europa acelerou a busca por novos destinos para exportação.

“A Europa vem sofrendo muito com a retração do mercado chinês e com a instabilidade nos Estados Unidos, onde há tarifas elevadas para os produtos, o que afetou as exportações europeias. Com isso, há um estoque maior de produtos da Europa, e eles estão procurando países onde há potencial de crescimento e um mercado em evolução, como o Brasil”, afirma.

A Wine projeta crescimento de aproximadamente 5% nas importações de rótulos europeus ainda neste ano, percentual que deve se refletir diretamente nas vendas. Para Magno, os consumidores brasileiros começarão a perceber os efeitos da redução tributária nos próximos meses.

“Esperamos um aumento de 5% neste ano na importação de rótulos europeus, o que deve se refletir em um crescimento de 5% nas vendas. Os preços vão cair nos próximos meses, com a substituição dos estoques. Se o câmbio permanecer no atual patamar mais baixo e a situação no Oriente Médio se normalizar, veremos reduções no varejo que podem chegar a 10% nos rótulos europeus”, destaca.

Atualmente, os vinhos importados representam cerca de 35% do consumo brasileiro, enquanto os nacionais respondem por aproximadamente 65%. Dentro da parcela importada, os rótulos europeus já representam 42,4% do total. Ainda assim, Chile e Argentina seguem dominando o mercado externo, com participações de 38,4% e 16,4%, respectivamente.

O acordo comercial, entretanto, deve aumentar significativamente a competição. Importadores acreditam que os vinhos europeus podem ampliar sua participação de forma consistente ao longo da próxima década, beneficiados tanto pela redução das tarifas quanto pelo interesse crescente dos consumidores por produtos de maior valor agregado.

Magno observa que a redução tarifária também favorece o avanço dos vinhos premium e superpremium, segmento que vem apresentando crescimento superior ao das categorias de entrada.

“Os vinhos acima de US$ 25 cresceram 10% na última década, enquanto as versões abaixo desse valor tiveram vendas estagnadas”, afirma.

O movimento já é percebido por empresas que atuam diretamente na importação e promoção de vinhos. Malu Sevieri, diretora da ProWine São Paulo, afirma que o interesse dos produtores europeus aumentou significativamente nos últimos meses.

“A demanda já aumentou bastante. Os importadores estão ampliando seus portfólios porque também existe um interesse crescente por parte dos produtores europeus em entrar aqui. O Brasil passou a ganhar protagonismo e hoje é prioridade para esses produtores”, afirma.

Para ela, os consumidores devem começar a perceber reduções graduais nos preços já durante o segundo semestre.

“Acho que existe muito entusiasmo no mercado e entre os consumidores. Todo mundo comenta que o vinho importado vai ficar mais barato. O impacto deve começar a aparecer aos poucos. Acredito que já no segundo semestre possamos ver algumas reduções de preço”, diz.

Entre os países mais beneficiados pelo acordo, Portugal desponta como um dos principais candidatos a ampliar sua presença no mercado brasileiro. Dados do Ministério do Desenvolvimento mostram que os vinhos portugueses já vêm superando os argentinos em determinados períodos recentes.

Frederico Falcão, presidente do ViniPortugal, entidade que reúne mais de 500 produtores lusitanos, estima que as vendas de vinhos portugueses para o Brasil possam crescer até 10% neste ano.

“Portugal deve ganhar mais espaço, embora haja uma perspectiva de avanço da Itália, Espanha e França. Neste primeiro momento, os vinhos mais baratos devem ganhar espaço, e os de média gama terão avanço nos próximos anos com a redução no preço”, afirma.

Segundo ele, o potencial de crescimento do consumo brasileiro ainda é enorme.

“O Brasil tem um consumo per capita que não chega a três litros por ano, bem menor que os 60 litros de Portugal”, observa.

No segmento de restaurantes, o cenário também é visto com otimismo. André Martins, diretor de Expansão e Novos Negócios do Pobre Juan, acredita que a maior concorrência beneficiará diretamente os consumidores.

“Isso vai criar oportunidade de experimentar um vinho novo e ajudar na rentabilidade das nossas vendas. Já estamos tendo conversas com as importadoras para ampliar vinhos da Itália, França e Espanha”, afirma.

O grupo estima uma redução de preços entre 5% e 8% nos próximos meses.

Na Itália, o Brasil já é tratado como mercado estratégico. Maria Maddalena Dal Grosso, diretora da Italian Trade Agency no Brasil, destaca que as importações de vinhos italianos cresceram 13,9% no ano passado.

“A combinação entre a desoneração tarifária gradual e uma taxa de câmbio favorável atua diretamente na redução dos custos de importação na alfândega”, afirma.

Segundo ela, o impacto não deve se limitar à queda de preços.

“Isso não se traduz necessariamente em uma mera redução de preços nos produtos de massa, mas em uma forte aceleração na introdução de rótulos das categorias premium e superpremium a preços mais acessíveis e competitivos”, explica.

A estratégia também está sendo observada por produtores portugueses. José Luis Moreira da Silva, CEO do Esporão, afirma que o acordo Mercosul-União Europeia já influencia os planos de expansão da companhia.

“O Brasil é hoje o nosso segundo maior mercado, atrás apenas de Portugal”, afirma.

Segundo ele, a empresa avalia ampliar sua oferta para o consumidor brasileiro.

“Estamos pensando em produzir espumantes, categoria que ainda não vendemos no Brasil, além de vinhos com menor teor alcoólico”, revela.

Fernando Zamboni, CEO da Winelands, acredita que a competição entre produtores ficará ainda mais intensa nos próximos anos.

“Os produtores europeus já são conhecidos por serem muito agressivos na política de preços”, afirma.

Para ele, regiões tradicionais como Bordeaux, Toscana, Piemonte e Rioja devem ganhar mais visibilidade no mercado nacional.

“O Brasil é hoje um dos poucos países onde o consumo de vinho continua crescendo, enquanto em boa parte do mundo ele vem recuando”, destaca.

Apesar do entusiasmo dos importadores e produtores estrangeiros, o avanço dos europeus gera preocupação entre os fabricantes nacionais. Luciano Rebellatto, presidente da Consevitis-RS, afirma que o setor brasileiro busca medidas para preservar sua competitividade diante do novo cenário.

“Estamos trabalhando nessa agenda para explicar que o produto tem uma cadeia importante de empregos no Brasil e que o setor será muito impactado com a redução da tarifa para os produtos europeus”, afirma.

Ele também critica a inclusão do vinho no chamado imposto seletivo previsto pela reforma tributária.

“O setor será muito impactado com a redução da tarifa para os produtos europeus”, reforça.

Larissa Fin, fundadora do evento Vinho na Vila e da Casa Vitis, avalia que o principal desafio continua sendo a elevada carga tributária doméstica.

“O produtor tem que sair de trás do balcão e ir para a rua. Não dá mais para esperar o cliente achar o vinho na gôndola do supermercado, espremido entre dezenas de importados mais baratos”, afirma.

Para ela, o acordo pode representar uma oportunidade para nichos específicos da produção nacional.

“O acordo abre uma janela para nichos e produtos de alta gama, como os nossos espumantes”, conclui.

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