
O Brasil se tornou um dos mercados de maior crescimento para os vinhos de Chablis, região francesa da Borgonha conhecida pela produção de brancos elaborados com a uva Chardonnay. Em dois anos, as vendas ao país aumentaram 70% em volume e 75% em valor, desempenho que ampliou a relevância dos consumidores brasileiros para os produtores locais.
Embora o Brasil ainda responda por menos de 1% das exportações totais da Borgonha, sua participação na América do Sul é significativamente maior. O país concentra 89% do volume e 79% da receita obtida com os vinhos da região no continente.
Para Paul Espitalié, copresidente da Chablis Commission do Bourgogne Wine Board (BIVB) e diretor-geral da Maison Simonnet-Febvre, o mercado brasileiro ainda tem espaço para avançar. Segundo ele, as vendas começaram 2026 em ritmo positivo e não há, até o momento, sinais de estabilização da demanda.
A percepção também aparece entre produtores tradicionais. A Maison Joseph Drouhin, fundada em 1880 e com vinhedos em diferentes áreas da Borgonha, coloca o Brasil entre seus 15 maiores mercados mundiais. Segundo Christophe Thomas, diretor da vinícola, o país está entre os responsáveis pelo crescimento recente da companhia.
Parte da expansão é atribuída a uma mudança no perfil do consumidor brasileiro. Produtores identificam maior procura por vinhos brancos mais leves e frescos, especialmente entre compradores mais jovens, embora os tintos ainda tenham presença relevante no mercado nacional.
A estratégia comercial de Chablis procura aproveitar essa mudança começando pelas categorias de entrada. Chablis e Petit Chablis são utilizados para apresentar a denominação a novos consumidores antes de produtos de maior valor, como Premier Cru e Grand Cru. Mesmo assim, os representantes da região afirmam observar crescimento também nas categorias superiores, embora em ritmo menor.
No Brasil, a entrada nesse mercado ainda exige desembolso significativamente superior ao preço médio das garrafas mais consumidas. Vinhos de Chablis dificilmente chegam ao varejo nacional abaixo de R$ 250. Para os produtores, porém, o reconhecimento internacional da denominação e a consistência entre suas diferentes categorias ajudam a sustentar a demanda mesmo nesse patamar.
Restaurantes também ocupam posição central na estratégia de expansão. A organização responsável pela promoção da região tem investido na formação de equipes e sommeliers, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre Chablis e alcançar principalmente consumidores que começam a explorar vinhos brancos.
Os produtores associam parte do apelo da região às características dos vinhos. O solo calcário de Chablis é relacionado a exemplares de maior frescor e acidez, com características frequentemente descritas pelo setor como minerais e salinas. Esse perfil estaria alinhado à procura crescente no Brasil por vinhos brancos voltados também à harmonização gastronômica.
O principal limite para uma expansão mais acelerada está do lado da oferta. Diferentemente de regiões produtoras onde novos vinhedos podem ser implantados conforme a demanda aumenta, Chablis e outras áreas da Borgonha possuem restrições para ampliar a superfície plantada. Safras menores nos últimos anos também contribuíram para limitar a disponibilidade e pressionar os preços.
No mercado brasileiro, essa oferta restrita se combina aos custos de importação e à tributação. Por isso, representantes da região acompanham o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia como um fator capaz de alterar as condições do mercado no médio e longo prazo.
A eventual redução de tarifas poderia diminuir parte do custo de entrada dos vinhos europeus no Brasil, mas seus efeitos dependerão da implementação efetiva e do cronograma de redução tarifária. Para os produtores de Chablis, o cenário acrescenta uma possibilidade de expansão a um mercado que já cresce rapidamente mesmo com as atuais barreiras comerciais.
